Planeta Autismo por Dr. Estevão Vadasz

Finalmente um novo medicamento para o autismo
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Dr. Estevão Vadasz

O autismo continua sendo um grande mistério devido ao desconhecimento de sua causa e da ausência de tratamentos medicamentosos eficazes. Isso se deve ao fato do autismo não ser uma “doença'' única, mas sim centenas de “doenças'' diferentes com uma expressão clínica comum.

Entre as causas mais comuns:

1. Centenas de diferentes genes atuando isoladamente ou em associações complexas, causando, conforme as suas funções, danos muito específicos ao cérebro do feto;

2. A interação genes/meio ambiente: centenas de agentes tóxicos existentes no ar, solo e água que podem alterar a estrutura e função dos genes;

3. Doenças infecciosas adquiridas no período gestacional;

4. Uso de determinados medicamentos durante a gestação;

5. Complicações clínicas, intercorrências, acidentes no período perinatal e pós-natal imediato.

Portanto jamais teremos um medicamento único, capaz de tratar de todos os “autismos''.

Screen shot 2015-06-08 at 12.07.36Cada autismo demandará um tratamento específico, particular, sob medida, dependendo de sua etiologia (causa).

É o caso do medicamento objeto deste post, concebido apenas para tratamento de um subgrupo etiológico (causa) constituído por pacientes autistas portadores de importantes distúrbios alimentares e digestivos (que não são poucos).

Trata-se do SER-109 (sigla) desenvolvido pelo laboratório Seres Health, de Massachusetts, com o apoio financeiro e logístico da Nestlé Institute of Health (subsidiária da Nestlé). O medicamento encontra-se na fase 3 de ensaio clínico (pré-comercialização) devendo chegar ao mercado num prazo de dois anos.

O SER-109 se enquadra numa nova categoria de medicamentos denominados “drogas biológicas'', trata-se de uma cápsula contendo esporos de centenas de bactérias de espécies diferentes, ausentes ou em quantidade insuficientes no aparelho digestivo de pacientes autistas e responsáveis pela produção de dezenas de substâncias essenciais à nossa saúde e sobrevivência (ler meu post de 10/05/14 para entender melhor).

Screen shot 2015-06-08 at 12.32.06Para o leitor leigo, essa história de bactérias pode parecer estranha, sempre as associamos a doenças, porém a realidade é bem outra.

Só estamos vivos graças à ação de mais de cem trilhões de bactérias que vivem em nosso organismo.

De qualquer modo este assunto anda muito “quente'', mobilizando centenas de cientistas e pesquisadores mundo afora. Recentemente promoveu-se o primeiro simpósio internacional sobre o tema, patrocinado pelo Arkansas Children Hospital nas pessoas do cientista Richard E. Frye e colaboradores.

Simultaneamente o vice-presidente da Nestlé, Luiz Cantarell, anunciou em palestra na cidade de Londres o lançamento próximo do SER-109 (ainda sem nome comercial) acreditando que este novo medicamento beneficiará milhares de autistas.

Referência: “Approaches to Studying and Manipulating the Enteric Microbiome to Improve Autism Symptoms''. Journal of Microbial Ecology in Health and Disease (2015).


Utensílios plásticos contendo BPA podem causar autismo
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Dr. Estevão Vadasz

Em pesquisa inédita, os cientistas Peter Stein, da Rowan University, e Yue Ming, da New Jersey Medical School, e suas respectivas equipes, estabeleceram pela primeira vez uma relação direta de causa e efeito entre objetos plásticos contendo BPA (Bisfenol A) e o autismo.

 

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O BPA não é nenhuma novidade, foi sintetizada em 1891 e incorporada à indústria de plásticos em 1957 e desde então associada a várias doenças além do autismo. O BPA é uma substância estruturante que confere dureza e resistência a objetos confeccionados em plástico. Milhares de diferentes objetos plásticos contendo BPA fazem parte de nosso dia a dia, desde utensílios para bebês, brinquedos, móveis até os considerados mais nocivos para a saúde: objetos plásticos que acondicionam alimentos.

Facilmente absorvido pelo organismo humano, o BPA funciona como um disruptor endócrino mimetizando a ação de certos hormônios (estrógenos). Acumulado em grandes concentrações na placenta, cordão umbilical e líquido amniótico de gestantes causa danos irreversíveis (autismo) no desenvolvimento do cérebro de fetos suscetíveis e vulneráveis, incapazes de metabolizar e eliminar o BPA de seus organismos.

Os pesquisadores examinaram a urina de 98 crianças, 46 autistas e 52 sadias e encontraram discrepâncias significativas na concentração de BPA nos dois grupos: as crianças autistas apresentaram concentrações de BPA na urina de 3 a 15 vezes maior que as crianças sadias.

BPA_FREE_ESTEVAO_VADASZ_Portanto não é sem fundamento que vários países vem proibindo o uso de BPA na fabricação de objetos de material plástico. No Brasil a ANVISA proibiu em 2012 a fabricação de mamadeiras contendo BPA, porém continuamos mergulhados em milhares de outros produtos contendo a substância que acaba sendo absorvida pelas gestantes e transferida para os seus fetos.

Até alimentos acondicionados em latas (leite em pó, por exemplo) contém uma película de BPA que envolve a superfície interna de sua estrutura. No Japão essa película foi substituída por outra confeccionada com PET (politereftalato de etileno).

Como se proteger?

Se você realmente ficou preocupado com essas informações: adquira apenas objetos plásticos certificados (BPA Free), observe o símbolo para reciclagem imprimido no objeto, um triângulo contendo um número (evite o número 7), volte a usar objetos de vidro, borracha, látex, porcelana, cerâmica, aço inoxidável, esmaltados (sem cádmio), alumínio anodizado e as insuperáveis e saudáveis panelas de ferro.

Referência: “Bisphenol-A Exposure in Children With Autism Spectrum Disorder''. Autism Research, 2015.


Um simples exame de saliva para diagnosticar o autismo
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Dr. Estevão Vadasz

É o sonho de consumo de todos os médicos e da população em geral pois não existe nenhum exame laboratorial capaz de confirmar uma hipótese diagnóstica de autismo.

O diagnóstico de autismo continua sendo clínico, baseado no histórico e na observação do paciente e dependendo dos poucos especialistas disponíveis no Brasil para realizá-lo. O processo pode levar anos (filas de espera) beneficiando poucos e garantindo que milhares de centenas de autistas jamais receberão seu diagnóstico ou alguma forma de tratamento.

Eis que surge um grupo de pesquisadores da Clarkson e da State University of New York, liderados pelos Drs. Armand Wetie e Alis Woods propondo um método inédito, rápido e eficaz para realizar o diagnóstico de autismo: um simples exame de saliva.

Examinando a saliva de 6 jovens autistas na faixa de 6 a 16 anos e comparando a um grupo controle constituído por jovens neurotipicos (normais) os pesquisadores dectectaram na saliva dos jovens autistas um aumento significativo de nove proteínas e a diminuição ou ausência de outras três. As proteínas identificadas tinham uma função diretamente relacionadas ao sistema imunológico e a distúrbios digestivos.

Para a realização deste ensaio científico os pesquisadores lançaram mão de uma tecnologia sofisticada: a espectrometria de massa apoiada por conhecimentos fornecidos por um novo ramo da ciência: a proteômica que tem por objetivo estudar a estrutura e função de milhares de proteínas produzidas em nosso organismo obedecendo instruções fornecidas pelos nossos genes.

A notícia é alvissareira, se confirmada por outros grupos de pesquisadores, pois, em tese, poderá oferecer um diagnóstico rápido do autismo permitindo uma intervenção terapêutica precoce, garantindo um bom prognóstico para os pacientes.

No Brasil receio que recursos diagnósticos, como o proposto por estes cientistas, tragam mais angústia do que alívio ou esperança. Imaginem as famílias dos 2.000.000 de autistas que vivem entre nós cientes do transtorno que acomete seus filhos, netos, sobrinhos ou outros agregados sem ter a disposição nenhum recurso público a recorrer. É desesperador.

Referência: “A Pilot Proteomic Analysis of Salivary Biomarkers in Autism Spectrum Disorder'' – Journal of Autism Research.


Autismo será diagnosticado por imagem facial em 3D
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Dr. Estevão Vadasz

Neste exato momento está ocorrendo uma corrida tecnológica sem precedentes tendo como objetivo realizar o diagnóstico do autismo o mais precocemente possível e assim iniciar as intervenções terapêuticas o mais cedo possível (mais ou menos com um ano e meio). Diagnóstico + intervenção precoce = bom prognóstico.

O autismo é um transtorno extremamente complexo, de difícil diagnóstico e alto custo, constituído por um espectro muito amplo e heterogêneo: de casos muito graves (baixo funcionamento) até casos muito leves (síndrome de Asperger) e todas as variações possíveis entre esses dois extremos.

Apenas para ilustrar: convivemos no Brasil com 2.000.000 de autistas não diagnosticados, totalmente desassistidos e abandonados pelo estado, excluídos do sistema de saúde e educação e sem acesso ao mercado de trabalho. Para diagnosticar essa população imensa necessitaríamos de milhares de profissionais especializados (não dispomos) utilizando recursos clínicos e psicométricos (testes) durante décadas para atender toda essa demanda reprimida, sem a infraestrutura assistencial necessária (totalmente inexistente).

Porque recorrer à tecnologia?

Exatamente para transpor esse fosso de carências intransponíveis e insuperáveis, para agilizar o diagnóstico, baixar custos e iniciar o tratamento mais precocemente possível (com auxílio de tecnologia) já que não dispomos de recursos humanos e materiais para uma empreitada de tal magnitude.

Existem várias tecnologias em desenvolvimento, ao longo do ano postarei várias delas em meu blog.

Screen shot 2015-01-15 at 15.14.56Hoje o foco será sobre uma pesquisa que vem sendo desenvolvida pelos Drs. Ye Duan e Judith Miles, da Universidade de Missouri, e publicada na semana passada no Journal of Autism and Developmental Disorders.

Trata-se de uma sofisticada tecnologia de ponta que registra imagens faciais de indivíduos autistas em 3D, imagens estas submetidas em seguida a uma sofisticada análise estatística que mede todos os detalhes da superfície e estrutura facial nos seus mínimos detalhes. Confrontadas com um grupo controle constituído por crianças “normais'' (de 8 a 12 anos) as imagens evidenciaram alterações morfológicas (dismorfismos craniofaciais), alterações morfológicas estas que vem há décadas sendo observadas pelos olhos experientes de especialistas em autismo.

Além de, potencialmente, permitir o diagnóstico de autismo através do exame de imagem essa nova tecnologia permitirá também, baseadas em estruturas faciais particulares, constituir subgrupos etiológicos (causais) que facilitarão a condução de pesquisas genéticas mais objetivas e direcionadas.

 

Referência: “Facial Structure Analysis separates Autism Spectrum Disorders into Meaningful Clinical Subgrups'' – Journal of Autism and Developmental Disorders.


Autismo e a Arca de Noé – Pet Terapia
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Dr. Estevão Vadasz

Em 30/12/14 o media center da Universidade do Missouri divulgou um press release a respeito de um trabalho realizado em sua Faculdade de Veterinária pela pesquisadora Gretchen Carlisle e publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders. Para realizar a pesquisa a Dra. Carlisle avaliou 70 famílias com filhos portadores de autismo, na faixa dos 8 aos 18 anos, em atendimento no Thompson Center for Autism and Neurodevelopmental Disorders.

cachorro_humano_crianca_afetoO objetivo era avaliar a influência da convivência desses jovens com seus pets (animais de estimação). A maioria das famílias possuía cachorros e gatos. Algumas possuíam peixes, roedores, coelhos, répteis, pássaros e até uma aranha. A Dra. Carlisle concluiu que todos os pets e não apenas os cães promoviam uma melhora considerável na sociabilidade dos jovens autistas.

Há mais de 5 anos a Dra. Marisol M. Sendim, o fisioterapeuta Vinicius F. Ribeiro, fundador do TAC (Terapias Assistidas por Cães) e eu, introduzimos no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas um projeto inédito até então: intervenções terapêuticas mediadas por cães no hospital-dia, enfermaria e ambulatório. O sucesso, o encantamento junto aos pacientes e familiares foi imediato.

Ao contrário dos pets (animais de estimação) nossos cães são “trabalhadores profissionais'', passam por um longo e rigoroso treinamento para desempenhar várias funções especializadas: como cães terapeutas, como cães de assistência ou como cães de companhia. Vários outros animais são usados para fins terapêuticos: cavalos, pôneis, golfinhos, elefantes, macacos e até alpacas (cospem quando mal-humorados) porém nenhum supera os cães.

Cães estabeleceram com os seres humanos um relacionamento especialíssimo ao longo de mais de 100.000 anos, são milhares de anos de amizade, companheirismo, amor recíproco, incondicional e inabalável. Cães são extremamente inteligentes, “quase humanos'', capazes de ler nossos pensamentos, nossa linguagem corporal: gestos, posturas e olhares. São tão espertos do ponto de vista evolucionista que adotaram a neotenia (manutenção de características infantis ao longo de toda a sua vida) recurso que derrete o coração mais duro. Quem já não viu um dono chamar seu cão de “filhinho, nené''?

Baseados nesses fatos e observações, pesquisadores de vários países descobriram um “aditivo'' bioquímico que sustenta essa parceria: a ocitocina, também chamado de o “hormônio do amor''. A ocitocina é um neuro-hormônio produzido no hipotálamo e armazenado na glândula pituitária e que promete entrar no arsenal terapêutico para beneficiar portadores de autismo nos próximos anos. A apresentação atual, em spray líquido nasal é ineficaz devido a sua absorção sistêmica (sistema circulatório), disponibilizando para o SNC (sistema nervoso central) uma fração desprezível.

Nova tecnologia desenvolvida por pesquisadores noruegueses (OptiNose) promete acessar o SNC diretamente através de um aplicador de ocitocina em pó depositado nas terminações do nervo olfatório localizados no teto da fossa nasal. É a nossa esperança e de milhares de pais tendo como objetivo melhorar a vida social de nossos autistas.


Autismo e brócolis
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Dr. Estevão Vadasz

Desde Hipócrates e Galeno, ao longo de séculos, físicos (médicos) e alienistas (psiquiatras) notaram e registraram que alguns pacientes psicóticos na vigência ou na fase pós-febril apresentavam melhoras extraordinárias, com remissão de alucinações e delírios. Baseados nessas observações empíricas introduziram dezenas de procedimentos com o objetivo de induzir artificialmente febre (substâncias químicas e micro-organismos) para tratar de seus pacientes.

brocolis_estevaoO apogeu dessas práticas ocorreu no século 19 com a introdução da piroterapia nos hospitais psiquiátricos como procedimento rotineiro e acabando por premiar o psiquiatra austríaco Julius Wagner-Jauregg com o prêmio Nobel de medicina em 1927 por seu trabalho com pacientes portadores de neurossífilis usando a malarioterapia. Com o advento da moderna psicofarmacologia em meados do século passado essas práticas foram totalmente abandonadas.

E o que essa história toda tem a ver com o autismo?

Pesquisadores da Lurie Center for Autism (hospital escola da Faculdade de Medicina de Harvard) ouviram dezenas de relatos de pais de pacientes autistas afirmando que seus filhos “melhoravam'' muito após um episódio febril. Ao contrário das especulações de antanho, baseadas no empirismo, hoje conhecem-se as bases neurofisiológicas responsáveis por esse fenômeno: trata-se da resposta ao choque térmico, mecanismo que protege os neurônios do estresse oxidativo (ação antioxidante), neutralizando os radicais livres e reduzindo o processo inflamatório que acomete o sistema nervoso central.

Passo seguinte: faltava o “remédio'', a substância ou princípio ativo que pudesse promover esses benefícios terapêuticos aos portadores de autismo.

Eis que surge um grupo de pesquisadores da Johns Hopkins University (Terra Mater de Léo Kanner) que, em 1992, isolou e patenteou uma substância chamada de sulforafano, extraído de brotos de brócolis, substância com as propriedades terapêuticas procuradas. Os dois grupos de pesquisadores se associaram para testar a substância em 26 pacientes do sexo masculino com idades entre 13 a 27 anos, portadores de autismo de baixo a moderado funcionamento.

O resultado foi surpreendente: 13 dos 26 pacientes apresentaram melhoras significativas nas áreas de sociabilidade, comunicação e diminuição de comportamentos repetitivos e disruptivos. A pesquisa durou 18 semanas e as cápsulas de sulforafano foram fornecidas pela Brassica Protection Products, licenciada pela Johns Hopkins. Infelizmente após a conclusão da pesquisa e suspenção do sulforafano todos os autistas regrediram para o estado inicial sugerindo que o tratamento deve ser crônico.

Sabedoria popular. Parece que nossas mães e avós conheciam as propriedades terapêuticas do brócolis. Quem, quando criança não ouviu: “coma os seus brócolis''? Paradoxalmente o item mais odiado do cardápio infantil.

A pesquisa foi publicada online no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences em 15 de outubro passado sob o título: “Sulforaphane treatment of autism spectrum disorder''.


Descobriram a causa e a eventual cura do autismo. Será?
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Dr. Estevão Vadasz

Ou

A espetacularização de uma notícia e suas consequências.

No dia 21 de agosto p.p. num entusiasmado press-release, que se tornou “viral'' na imprensa internacional (menos no Brasil e outros países periféricos), o media center da Columbia University Medical Center anunciou: “Crianças com autismo possuem excesso de sinapses: possível normalização com uso de medicamento após diagnóstico''. A notícia gerou imensa expectativa entre familiares de autistas, seguida de grande frustração. O título do press-release sugeria que a causa do autismo e seu tratamento havia sido descoberto.

Nada mais falso. O título original do artigo, publicado on-line na revista eletrônica Neuron se referia apenas a UMA entre centenas de causas do autismo; a disfunção regulatória da proteína mTOR que, em circunstâncias normais, sinaliza o quanto de arborização sináptica deve ocorrer em nosso cérebro.

sinapse_Sinapses são estruturas localizadas nas extremidades dos neurônios que tem como função trocar informações entre si. Excesso de sinapses levam o sistema de processamento de informações ao colapso.

No início de nossas vidas ocorre um crescimento explosivo de neurônios e sinapses em nosso cérebro, que em circunstâncias normais, passam por um processo chamado de “poda neuronal'' (apoptose, autofagia) que elimina os excessos e organiza a arquitetura do nosso cérebro, para que este funcione de forma eficiente e saudável.

A disfunção da proteína mTOR e suas consequências foram observadas pela equipe de cientistas em amostras de tecido cerebral (post-mortem) de 26 indivíduos autistas na faixa de 2 a 20 anos e comparadas com material de um grupo controle constituído por 22 indivíduos sadios. Resultado: tecidos examinados de indivíduos autistas apontavam aumento significativo de sinapses.

O próximo passo foi reproduzir a disfunção em camundongos geneticamente modificados, usando como matriz as alterações genéticas encontradas em indivíduos portadores de esclerose tuberosa (síndrome de Bourneville) responsável por menos de 1% dos casos de autismo em seres humanos.

Aos camundongos “autistas'' foi administrado o fármaco rapamicina (sirolimus, everolimus), substância desenvolvida a partir do trabalho pioneiro de cientistas brasileiros, em 1965, na ilha da Pascoa (Rapa-Nui). Como esperado, ocorreu uma diminuição significativa de sinapses assim como de comportamentos “autísticos'' entre os roedores. Praticamente uma cura.

A rapamicina é uma substância extremamente tóxica, com muitos efeitos colaterais, usado como imunosupressor em transplantados e alguns tipos de câncer, portanto inviável no tratamento de crianças autistas. A esperança consiste em desenvolver medicamentos com ação terapêutica similar sem seus efeitos colaterais.

 Concluindo: o autismo é um transtorno extremamente complexo com centenas de etiologias (causa), nem todos causados por excessos de sinapses, aliás, poucos o são. O artigo se refere apenas a um deles, o que não é pouco, considerando que vivem em nosso planeta 70 milhões de autistas. Mesmo tratando-se de “curar'' menos de 1% deles é sem dúvida um grande e promissor avanço.


A causa primeira de óbitos entre crianças autistas: afogamento
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Dr. Estevão Vadasz

Levantamento feito entre os anos 2009 e 2011, publicado recentemente pela “National Autism Association'' (Estados Unidos), revela que 90% dos óbitos ocorridos nesse período entre crianças até os 14 anos de vida foram causados por afogamento acidental.

Segundo a Dra. Varleisha Gibbs da “University of Sciences'', na Filadélfia, muitas famílias americanas procuram praias, lagos, rios, piscinas e parques aquáticos no verão para se divertir e enfrentar o calor.

Com mudanças de rotina e de ambiente as crianças autistas muitas vezes se sentem desconfortáveis e se afastam de seus familiares em busca de isolamento e tranquilidade. É nessas circunstâncias que essas crianças, sem noção de perigo, se tornam vulneráveis a acidentes graves.

Em outro levantamento, feito junto a 856 famílias de crianças autistas, promovido pela “Interactive Autism Network'' (IAN) em colaboração com várias instituições americanas importantes, levaram os pesquisadores a resultados preliminares preocupantes: 50% das crianças autistas entre os 4 e 9 anos se afastam de seus familiares e lugares seguros para “perambular aparentemente sem objetivo'', percentual este 4 vezes maior que aquele encontrado entre crianças neurotipicas (normais).

Os cinco motivos mais comuns referidos pelos pais para tal comportamento:

1. Tentativa de se afastar de estímulos sensoriais desagradáveis.

2. Tentativa de se afastar de situações ansiogênicas (demandas escolares por exemplo).

3. Buscar ambientes acolhedores e agradáveis (um parque por exemplo).

4. Procurar locais de interesse especial (estações de trens e metros por exemplo).

5. Correr simplesmente por impulso e explorar lugares novos.

Essas pesquisas, ao contrário de outras nas áreas de genética, neurociências e psicofarmacologia, fornecem subsídios para intervenções imediatas nas mais diversas áreas: políticas públicas, mobilização das famílias de portadores e das comunidades. As providências que vem sendo tomadas (nos Estados Unidos) para proteção dessas crianças:

– Integração e cooperação com as autoridades policiais locais.

– Uso de pulseiras e correntes com placas de identificação.

– Camisetas e boinas indicando que a criança é portadora de autismo.

– Dispositivos eletrônicos de rastreamento e monitoramento via GPS ou telemetria.

– Alarmes em pontos de evasão (portas, portões e janelas).

– Vídeo modelagem como recurso de instrução e treinamento dessas crianças diante de situações de risco.

– Colocação de placas e avisos de alerta em locais de risco (lagos, piscinas, praias, avenidas e ruas) de fácil entendimento para crianças autistas treinadas com o recurso da vídeo modelagem.

– Aulas de natação e manobras de sobrevivência (crianças autistas adoram a água).

Espero que essas informações sirvam de alguma forma para tornar evidentes o nosso atraso (descomunal) em relação aos países desenvolvidos no que diz respeito aos cuidados com indivíduos autistas.


Transplante de fezes e ovos de verme suíno: tratando autistas
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Dr. Estevão Vadasz

Entre as dezenas de teorias causais do autismo, algumas são recorrentes, como a que atribui a causa do transtorno a um processo inflamatório crônico do aparelho digestivo, de natureza imunológica.

Teoria esta inspirada nos trabalhos independentes porém complementares dos Drs. David Stracham em sua “hipótese da higiene'' (1989) e Graham Rook com a “hipótese dos velhos amigos'' (2003).

A “hipótese da higiene'' sugere uma mudança importante em nosso microbioma (bactérias, virus, e fungos que nos habitam) iniciada há 10.000 anos atrás, quando passamos de caçadores-coletores nômades a agricultores assentados em comunidades fixas. Com o processo de urbanização surgiram novas doenças infecto-contagiosas típicas de aglomerações (“crowd infections''), responsáveis por dezenas de epidemias que aniquilaram milhões de indivíduos ao longo dos últimos séculos.

Há duzentos anos iniciamos uma lenta porém contínua revolução sanitária, com a identificação de microorganismos patogênicos, tratamento de água e esgoto, coleta de lixo, hábitos de higiene pessoal, bactericidas, vermífugos, vacinas e todo tipo de desinfetantes.

Stracham conclui que nesse mundo esterilizado alteramos significativamente nosso microbioma, perdendo inquilinos vitais para a manutenção eficiente e saudável de nosso sistema imunológico.

Rook por sua vez amplia o conceito, sugerindo que nosso sistema imunológico foi construído ao longo de centenas de milhares de anos, dentro de uma perspectiva darwinista-evolucionista. Essa longa convivência com microorganismos e outros parasitas seria responsável pela constituição daquilo que é hoje o nosso sistema imunólogico, ou que deveria ser. Já não somos caçadores-coletores nômades, vagando por florestas, pântanos, estepes e desertos. Como seres urbanos perdemos o equilíbrio entre nosso micro e macrobioma original e ancestral, causando consequentemente uma pane em nosso sistema imunológico.

Apesar dos danos sugeridos pelos autores, grande parte da população dos países desenvolvidos continua desfrutando de uma vida sadia e longeva. É verdade que destruímos parte de nosso micro e macrobioma (protozoários e helmintos), peças importantes de nossa máquina imunológica. E é verdade também que nos últimos cem anos houve um aumento considerável na incidência de “novas   doenças'': alergias, doenças inflamatórias (agudas e crônicas) e autoimunes.

É nessa categoria, segundo alguns cientistas que o autismo se insere. Uma doença inflamatória crônica do aparelho digestivo com repercussões sistêmicas. As paredes do intestino grosso (cólon), mais permeáveis, permitiriam, em tese, a passagem de moléculas tóxicas para o sistema circulatório e através deste, passando pela barreira hematoencefálica (que protege o cérebro da invasão de patógenos) atingiriam o cérebro, causando graves danos (o autismo).

No entanto nosso microbioma digestivo continua rico em diversidade. São 100 trilhões de bactérias, de 300 à 600 espécies diferentes exercendo dezenas de atividades vitais: produção de enzimas digestivas, vitaminas, absorção de nutrientes, controle de microorganismos patôgenicos (“os maus, de má índole''), graças à um sistema imunológico ainda eficiente e saudável.

Pesquisas recentes demonstram que o microbioma digestivo de indivíduos autistas é pobre em diversidade, com a presença desproporcionalmente alta de microorganizmos patogênicos, que denominamos disbiose, com o consequente desequilíbrio imunoregulátorio.

É necessário levarmos em consideração que este fenômeno ocorre devido aos hábitos alimentares exóticos dos indivíduos autistas: apetite muito seletivo, dieta extremamente restrita e pouco saudável. Crianças autistas apresentam frequentemente problemas digestivos: constipação, diarreia, flatulência, cólicas e refluxo gastroesofágico.

Como tratar?

Supondo que todas essas hipóteses e teorias são verdadeiras, a opção terapêutica é introduzir no organismo desses pacientes um microbioma saudável (próbioticos).

Como fazê-lo?

Também parece óbvio. Basta consumir alimentos ricos em próbioticos: leite e alimentos fermentados, iogurtes, coalhadas, suplementos e cápsulas ou sachês contendo próbioticos liofilizados.

Funciona?

Não, apesar de serem alimentos muito saudáveis, as poucas bactérias (2 a 3 espécies) neles contidos são destruídos ao chegar no nosso estômago pelo ácido clorídrico.

Quais são as opções? A Imunoterapia Próbiotica.

1. Introdução de microbioma via transplante fecal.

2. Introdução de macrobioma, via ingestão de ovos de vermes suínos.

Transplante de Macrobioma Fecal – Em uso na China há séculos, foi introduzido no ocidente pelo Dr. Ben Eiseman em 1958. Trata-se de um procedimento simples e de baixo custo, com eficácia comprovada  no tratamento de infecções graves do aparelho digestivo por bactérias resistentes à antibióticoterapia e em fase experimental no tratamento de doenças inflamatórias e autoimunes com respostas bastante satisfatórias e promissoras.

Basta colher 50 gramas de fezes de um doador sadio, geralmente um parente do receptor (que passará por uma bateria de exames laboratoriais) e diluir o material em água estéril ou soro fisiológico (de 200 a 500 ml), processado em laboratório para a obtenção de uma solução homogênea que será filtrada para retenção de resíduos sólidos. A solução obtida sera introduzida no intestino grosso via colonoscópio.

Para aqueles que consideram o processo asqueroso, surgiu em 2013 uma opção alternativa. O Dr. Thomas Louie da Universidade de Calgary criou uma cápsula ácido-resistente contendo toda a flora intestinal do doador, bastando degluti-la em meio copo d'água.

Ingestão de ovos de vermes suínos (Helmintoterapia) – Introduzido recentemente no arsenal terapêutico do autismo pelo Dr. Eric Holander (2013). Trata-se do uso terapêutico de ovos de Trichuris suis ('' verme chicote''), um dos “velhos amigos'' do Dr. Rook, inofensivo para o ser humano e com comprovada ação imunoregulatória. Administra-se a cada 15 dias durante 3 meses, 2500 ovos via oral.

Os resultados terapêuticos tem sido idênticos àqueles obtidos com o transplante de microbioma fecal.

Finalizando, estes procedimentos tem, segundo pesquisas, melhorado o comportamento disruptivo de pacientes autistas: irritabilidade, impulsividade, agressividade e agitação.

Apesar desses resultados promissores é necessário cautela e paciência. As experiências devem ser replicadas e avalizadas pela comunidade científica.


Dois de abril, “Dia Mundial da Conscientizaçao do Autismo”. E no Brasil?
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Dr. Estevão Vadasz

Dezoito de dezembro de 2007, a Assembléia Geral das Nações Unidas ( ONU ), decide, por unanimidade, que o dia 2 de abril de cada ano será o “Dia Mundial da Conscientização do Autismo''. Não é pouca coisa, a ONU patrocina apenas três condições médicas, sendo uma delas o autismo. O objetivo é claro: disseminar informações mundo afora sobre um transtôrno pouco conhecido que afeta 1% da população mundial  ( 70.000.000 de indivíduos ), 2.000.000 no Brasil.

Nesta data as nações devem iluminar de azul seus principais monumentos, promover campanhas informativas, encontros, eventos e manifestações maciças em prol da causa.

O autismo é um transtorno extremamente complexo que se manifesta nos três primeiros anos de vida acompanhando o individuo até a velhice. Compromete a capacidade de comunicação/linguagem, sociabilidade, exibindo ainda comportamentos repetitivos e interesses restritos. Muito heterogêneo em sua apresentação clinica (de muito grave a muito leve) são “2.000.000 de tons de azul'', nenhum autista é igual a outro, exigindo assim tratamentos específicos, prescritos sob medida, individualizados, administrados por profissionais especializados (médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e pedagogos – equipe mínima).

A máxima hoje é : diagnóstico precoce + tratamento precoce = melhor prognóstico.

Nos primeiros anos de vida as intervenções terapêuticas podem exigir uma carga de até 20 hs. semanais administradas numa razão de um terapeuta por paciente.

Ao longo dos anos as intervenções terapêuticas serão ajustadas de acordo com as necessidades do paciente levando em conta seu grau de comprometimento.

Objetivos: promover a socialização, escolarização, profissionalização, inserção no mercado de trabalho, acomodação residencial e em raros casos a institucionalização.

E no Brasil? A situação é catastrófica. Dos 2.000.000 de autistas brasileiros menos de 10% foram diagnosticados até o presente momento, e mesmo esses raramente recebem assistência adequada. Destituídos de cidadania, são invisíveis, fantasmas, não existem para o estado, que jamais promoveu uma campanha informativa abrangente. O mais espantoso é o fato da população ter tomado conhecimento do transtorno através de uma personagem de novela veiculada recentemente pela televisão.

Explicações? Incompetência, má gestão da coisa pública. Basta ver a nossa colocação no ranking das nações: 85º lugar (IDH 2013).

Educação? Mal conseguimos alfabetizar as crianças neurotípicas (normais) que dirá crianças autistas que necessitam de métodos pedagógicos especializados aplicados por professores habilitados.

Saúde? Em colapso total, nenhuma unidade especializada em autismo, equipes de saúde que nada sabem sobre o autismo, portanto incapazes de diagnosticar e tratar.

Segurança? Somos campeões mundiais de homicídios em números absolutos (50.000 homicídios por ano). Qual pai ou mãe de autista deixará seu filho ir até a esquina comprar um pãozinho?

Recursos ($)? Zero centavos, (R$ 60.000.000.000,00 para a copa e olimpíadas).

Portanto, tudo de azul para as famílias e profissionais que lutam, militam, participam, exigem o melhor para os autistas brasileiros, só assim conseguirão os recursos necessários para uma assistência digna.